Querido,
Perguntou-me certa
vez porque nunca lhe escrevera. Por meio desta carta tentarei responder. Nunca foi fácil traduzir-te, decifrar-te. Mostrou-se sempre tão
misterioso,
que foi impossível notar o que estava por vir. Não conseguiria
afirmar porque me envolvi, mas arrisco a dizer que seus olhos me tomaram. Dentre
tudo
que possuis estes nunca mentiram, nunca enganaram. Não me bastavam suas
palavras, se seus olhos não confirmassem o que acabara de ser dito. Não me arrisco a falar de amor, me perco. Porém, algo diferente fez-se presente.
Tudo encontra-se separado em formas, maneiras. E sendo assim, o nosso é
um amor construído.
Não menosprezando os amores urgentes, rapidamente decifrados,
encontrados, manifestados. Entretanto
não nos encaixamos neste. Não gosto da urgência, possuo gosto pelo sabor
da calma.
Sinto – e como poeta que sou tendo a tornar o “sentir” mais importante e
verídico
do que o “crer” – que possuímos o de maior valor, maior riqueza, maior
força. Por
meio deste tornei-me inerente a você, permanecendo ligada de modo
íntimo, de
maneira necessária. O destino nunca foi algo em que eu acreditasse,
depositasse
minhas esperanças e expectativas. Mas como herança – talvez negativa,
deste amor
conquistado por nós – sobrou-me o desejo e a necessidade de crer que
quando nada mais interceder
por nós este elemento incerto entrará em cena, que nos salvará. Talvez
nunca tenha lhe escrito
porque falar de algo é simples, mas falar de tudo...
Perdoe-me por não transmitir-lhe belas e singelas palavras,
Com todo meu amor, M.