- Está ocupada?
- Mais ou menos, mas pode falar.
- Preciso de um... De um conselho.
- Fala.
- Mudei meu comportamento com ele, voltei à estaca zero.
- Como? Brigaram?
- Eu o coloquei num lugar tão profundo no meu coração,
bem na parte mais sensível, digamos assim. E aí, qualquer coisinha machuca
muito. Às vezes em que ele me deixou lado pra sair com outras pessoas, àquela
merda de foto. E aí eu tive que me forçar a esperar menos, contar menos, pra
tentar colocá-lo num lugar onde não machuque tanto. Não é o começo do fim, nem
é como se eu tentasse esquecer ele. É mais uma forma de autoproteção.
- Olha, eu ouvi em um programa que a gente não pode
exigir tanto do amor. E na verdade eu sempre te disse isso. Tanto na época em
que você não acreditava na força que duas pessoas podem ter juntas, quanto
agora que você se vê e se encontra tão "frágil". O cara disse que a
gente não pode pedir, cobrar ou querer que o amor resista a tudo. E eu acabei
concordando. A gente não pode CRER nisso. Porque quando a gente toma como
convicção o fato de que o amor resiste a tudo, nós acabamos fazendo ele passar
por tudo. Entende? Também acho que, mesmo entendendo o seu lado, é preciso
aceitar que as pessoas são diferentes. E essa é a graça e a desgraça da vida. O
paraíso e o purgatório. Se em alguns momentos é ótimo ter alguém pra cima
enquanto estamos tristes e ver esta pessoa nos reerguer, também podemos penar
ao ver que essa diferença de momentos a cega, mesmo a proximidade sendo grande,
impedindo que ela nos note. Que nos perceba, ali, precisando dela. É
complicado. E posso estar falando besteira. Entendo o que você fez: quis menos,
pra continuar querendo. Mas será que é certo ou bom você tornar ele algo
"menor" do que realmente é para não se machucar? Não estou julgando
não, sou a rainha da autoproteção. Mas cuidado, esse ai é o primeiro tijolinho
do muro. E se ele crescer uma hora você pode se ver em cima dele, ou pior, sem
conseguir subir para chegar ao outro lado. E adivinha quem está do outro lado?
- Às vezes eu penso que é só medo. Dele não me
considerar como eu o considero. De não ser recíproco, sabe? Mas às vezes eu
acredito que cada um tem sua forma de dar amor, e que a dele é assim mesmo.
Meio silenciosa, meio distante. Só que dói. Querer a presença dele e me achar
sozinho. Entende?
- A gente não pode querer receber exatamente o que
doamos a alguém. Eu sei que é uma das coisas mais difíceis da vida, mas é
exatamente assim. Cada um ama a sua maneira. Claro que dói, e dói muito. Mas
você além da distância no que tange os sentimentos, tem a distância física.
Esse seu trabalho em outro estado, essas pessoas horrorosas com quem tem
sido obrigado a lidar. O melhor e único conselho que tenho a lhe dar é que
tenha paciência.
- Porque você não nasceu homem pra eu me casar com você?
- Garanto que como casal socialmente aceitável não
renderíamos nem a metade!
- A verdade é que a gente prefere errar com os outros,
em vez de um com o outro.
- Isso é...