domingo, 22 de dezembro de 2013

Para ler daqui a 10 anos.

E ai, bonita? Se nosso plano deu certo nesse momento a casa está uma zona - e se te conheço bem, e não há como questionar isso, você nem liga... Brinquedos, chupetas, mamadeiras e fraudas espalhadas pela casa que você, com todo cuidado e frescura, fez questão de idealizar cada canto. O jardim na frente, a piscina nos fundos, um canto com grama baixinha para curtir o sol se pôr, os diversos quartos para que - assim como coração de mãe - ela acolha toda e qualquer pessoa que trouxer consigo amor e a paz que você tanto quis conseguir. Nosso menino deve ter quatro anos e ser uma graça, já a princesa deve estar tentando dar os primeiros passos - enquanto você faz com o indicador os seus primeiros cachinhos. Controle-se, sei da sua paixão por vestidinhos, mas ela não precisa de tantos assim... Não me decepcione, diga que está filmando cada momento único deles. Risadas, choros, primeiras palavras... Papai e mamãe devem estar adorando cuidar dos netinhos. Eles sonhavam tanto com essa época. Falando na nossa mãe... Como foi ouvir "mamãe" pela primeira vez? Com a sua sorte, provavelmente os paparicou e a primeira palavra acabou sendo "papai". Por falar nele, como ele é? Ele corresponde ao nosso modelo de marido ideal? Um Michael Richard Kyle da vida? Me diz que alguém engraçado, simpático e família apareceu na sua vida e você o permitiu ficar. Você sempre adorou assustar e expulsar toda e qualquer pessoa que tentasse ficar na sua vida. Alguém que mesmo durante as brigas consegue tirar um sorriso bobo do seu rosto e te fazer acreditar que o dia seguinte sempre será melhor que o anterior. Alguém que despertou em você aquele amor que é tão puro que merece durar mais que uma vida. Diz que tirou da cabeça essa ideia de produção independente porque "casamento é furada". Sabemos que isso era fachada. De Amélia não tem nada, mas você sempre sonhou com os almoços, nos domingos, em família. Diz que você voltou a ter fé e confiança no amor. E os estudos? Conseguiu a pós? O mestrado? Já soltou a frase "Se eu fizer doutorado enlouqueço..."? E o trabalho? Tem se orgulhado a cada dia da profissão que escolheu? Mal posso esperar pra curtir isso ai. Enquanto não chego, faz um favor: dá um cheiro nos meus pequenos e diz que já é amor antes de ser.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ah, mar.

        Não sei nadar, nunca soube. E para completar: me afoguei. A angustia, o desespero, a impotencia. Eu, ali, precisando ser salva. Hoje somente me arrisco a molhar os pés, checar a temperatura e, usando essa desculpa, voltar para a areia. Segura. Tranquila. Terra firme, pés no chão! O mar me encanta, mas não ouso entrar, não sei nadar.
        Não sei amar, nunca soube. E para completar: o conheci. A angustia, o desespero, a impotencia. Eu, ali, sendo salva. Molhei os pés: água quente, mansa, límpida. E essa pureza e transparência pela primeira vez não perturbaram. Acolheram! Olhei pra trás: a areia, como sempre, intacta e - antes de tudo - segura. Minha dúvida. O seu pedido. O meu sim. Dei dois passos, voltei um. Pra que pressa? Fiquei, gostei de ficar... Não sei amar, mas molhar os cabelos vez ou outra não faz mal. 
 
 
Ele sabe nadar... 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Je t'aime.

Eu não sei o que dizer. Algo que se tornou natural quando o assunto é você. Eu que sempre imaginei que soubesse o que fazer quando tivesse que tomar certas decisões, dizer certas coisas, passas por certar situações. E por um tempo, eu soube. Até encontrar você. Encontrei você e me perdi. Me perdi em você, perdi meu tempo e pensamentos em você e me perdi de você. Você me mudou. Você me ensinou a amar, a relevar, a voltar atrás. Me fez acreditar que eu podia ser melhor, que eu poderia ser de alguém e de alguma forma, pensar em envelhecer e não sentir receio disso. Eu me virei do avesso e me desvirei por um amor que você fez crescer em mim. Um amor que nunca passou. Um amor do qual eu tenho orgulho por ter sobrevivido a tudo o que foi imposto a ele. Nada do que eu viver daqui pra frente será imune de você e do que vivemos. Eu não me arrependo. De cada briga nossa ou as que arrumei, cada choro ou das coisas que tive que enfrentar e ouvir. A maioria das pessoas nunca experimentou esse tipo de amor. Um amor que nada nem ninguém vai poder me dizer que é errado ou não deveria existir. Porque eu já tive todas as confirmações de uma alma de que ele é real. Eu não tô aqui pra me despedir - até porque não sei se conseguiria fazer isso. Eu tô aqui pra te lembrar e, mais que isso, me lembrar do que tivemos. Que isso nunca se perca, independente de tudo o que aconteça. Você me deu as melhores memórias que alguém poderia querer e ainda que elas estejam cobertas pela dor, elas irão voltar com um sorriso, porque elas sempre voltaram.

Parte do meu coração.



Em toda a minha trajetória sempre busquei evitar choques, atritos, colisões. Sempre procurei somar e não acreditar em casualidades. Não acreditar que tudo é questão de estar no lugar certo, na hora certa. Estava errada! É certo que Deus faz coisas maravilhosas e uma ele me deu. Bastou uma conversa, um sorriso, uma piada mal contada para que me conquistasse. Dois corações dispostos a somar, a multiplicar e a acreditar que algo muito bonito pode nascer entre duas pessoas que a pouco não se conheciam. Caminhávamos em sentidos opostos e depois de nos encontrarmos continuamos a escrever a nossa história, não tão juntos como gostaríamos, mas próximos. Muito próximos. Cada um com sua velocidade, sua força, sua energia e sua intensidade. Minha felicidade é diretamente proporcional à sua presença, à sua companhia e inversamente à distância que por menor que seja nos separa. Ele o meu diamante lapidado, um ponto de paz. Eu o diamante bruto, o mar revolto que precisa de um porto, de um esconderijo. Dia após dia, semana após semana, subimos um degrau, sem pressa, com calma, chegando assim mais perto de ser aquilo que almejamos. Minhas letras apaixonaram-se por suas fórmulas, sua lógica, seus números. Encaixaram-se perfeitamente. É realmente lindo aprender a amar alguém. Dessa vez, talvez, sem a menor pretensão, ele tenha me ensinado a fórmula certa.


Seus cabelos claros e ralos antes tão bem afagados por mim. Seus olhos cerrados brilhavam todas as vezes que iam de encontro aos meus. Restaram lágrimas. Sua boca pertencia-me assim como o seu coração que hoje viaja por outros sentimentos, vontades. Sua pele tinha um cheiro único: o meu. Cheiro esse que perdeu-se entre tantas reticências e por fim um ponto final. Em seus braços sentia-me em casa, acolhida, protegida, amada. Suas mãos geladas contrastavam em minha pele sempre tão quente toda vez que me tocava. Suas longas pernas acostumadas e fugir e voltar para mim não sabem mais o caminho de casa. Se perderam por outras estradas, quartos, corações. Você se perdeu, eu me perdi, nos perdi. Seus cabelos claros e ralos antes tão bem afagados por mim.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

       
Querido,
    Perguntou-me certa vez porque nunca lhe escrevera. Por meio desta carta tentarei responder. Nunca foi fácil traduzir-te, decifrar-te. Mostrou-se sempre tão misterioso, que foi impossível notar o que estava por vir. Não conseguiria afirmar porque me envolvi, mas arrisco a dizer que seus olhos me tomaram. Dentre tudo que possuis estes nunca mentiram, nunca enganaram. Não me bastavam suas palavras, se seus olhos não confirmassem o que acabara de ser dito. Não me arrisco a falar de amor, me perco. Porém, algo diferente fez-se presente. Tudo encontra-se  separado em formas, maneiras. E sendo assim, o nosso é um amor construído. Não menosprezando os amores urgentes, rapidamente decifrados, encontrados, manifestados. Entretanto não nos encaixamos neste. Não gosto da urgência, possuo gosto pelo sabor da calma. Sinto – e como poeta que sou tendo a tornar o “sentir” mais importante e verídico do que o “crer” – que possuímos o de maior valor, maior riqueza, maior força. Por meio deste tornei-me inerente a você, permanecendo ligada de modo íntimo, de maneira necessária. O destino nunca foi algo em que eu acreditasse, depositasse minhas esperanças e expectativas. Mas como herança – talvez negativa, deste amor conquistado por nós – sobrou-me o desejo e a necessidade de crer que quando nada mais interceder por nós este elemento incerto entrará em cena, que nos salvará. Talvez nunca tenha lhe escrito porque falar de algo é simples, mas falar de tudo...
Perdoe-me por não transmitir-lhe belas e singelas palavras,
                                                                                         Com todo meu amor, M.

Nua.

Habituou-se a antiga vestimenta,
Caia-lhe bem, como nenhuma outra.
Encontrava-se vazia,
O reflexo causava-lhe repulsa.
Tentou mudar, debalde.
O mundo, persistente, soprava seu vento frio
Sobre sua ingênua tentativa.
Reconheceu-se como um sistema complexo,
Pura contrariedade.
Reconheceu, não sem relutar
Que apenas esta antiga e gasta indumentária lhe servia.
Louca, fria, plácida, intocável.
Por fim, encontrou sua almejada solução.
Manteve-se assim: nua.
Matenha-me assim!

Lou(cura).

A imagem plácida extinguiu-se. Dentre todos os desencantos herdados por parte de seus eternos gamenhos, sua postura mantinha-se serena. Inquietava-se, apenas, ao deparar-se com algum destes idílios que, eventualmente, a vida traz. Bastou um encontro. Aquele olhar corroeu o muro, tão alto, que a cercava. Fugiu da maneira mais ligeira e agressiva que seu corpo permitia, mas debalde. Tornou-se intrínseco à mente – fazia parte; estava dentro. Oh, pequena! Não soube - não desta vez - fazer o fogo cessar. A brisa soprava contra suas vontades, mantendo acesos seus desejos. Pela primeira vez, provou de sua mais doce loucura. Aprendeu a amar.