domingo, 30 de março de 2014

CARTA AOS 65,1%



Olá,

Meu nome, idade, cor e convicções não importam. Não hoje. Hoje o que importa é que sou mulher. Os senhores – em maior quantidade mulheres – optaram por dizer que, caso eu me vista de forma “provocante” ou me comporte de maneira “inadequada”, mereço ser estuprada. Venho por meio dessa carta dizer-lhes o seguinte: ainda que eu ande NUA na rua, estarei COBERTA de razão ao afirmar que “não é n-ã-o!”. Talvez o seu machismo travestido de “moral e bons costumes” não permita que me compreenda. Mas este crime hediondo, que tanto me enoja, nunca será culpa minha. Essa carta não é sobre um crime que envolve, apenas, sexo. Envolve violência. Um metrô lotado e, por consequência, apertado não justifica um assédio. O que causa um estupro não é uma roupa justa ou um comportamento fora dos padrões – falando neles: tire os seus do meu corpo – e sim o estuprador. Alguém que, cego e munido de sua força, acaba por obrigar alguém a se submeter às suas vontades, seus desejos e, acima de tudo, à sua crueldade. O machismo enraizou-se na sociedade. O preconceito entranhou-se. A liberdade, infelizmente, extinguiu-se. Meu respeito pelos senhores não depende da roupa que estão vestindo, da educação que receberam, da classe a qual pertencem, dos bens que possuem ou da maneira como se portam. Depende unicamente do respeito que recebo em troca. Hoje, após saber das respostas dadas às perguntas desta pesquisa, sinto ojeriza. Uma repugnância a tudo que esteja vinculado a este pensamento e à aquele ou aquela que concorda com o que foi dito. O resultado? Me entristece e, por pouco, não me faz perder a fé em um mundo mais justo, mais respeitoso e digno de nós: mulheres. Ao senhores deixo o meu sentimento mais desprovido de valor: a pena. E ao meu corpo dedico a minha revolução.


Não vim da sua costela. Você que veio do meu útero. Caso o meu short lhe pareça curto, sinto em informar-lhe, seu machismo que é grande!

terça-feira, 25 de março de 2014

UM AMOR TRANQUILO...



Esse amor é manso, sereno e, antes de tudo, maduro. Sem a agitação que a paixão pede. Sem o medo por trás da insegurança. Não perturba a mente, não inquieta a alma. Dispensa a ansiedade e a expectativa pela certeza do dia seguinte. Preza o hoje. Respeita o ontem. E deseja, gentilmente, o amanhã. Esse amor espera, não desespera. É paciente. Repousa, calmamente, sobre dois corações que insistem em viver, apenas, um do outro. E para o outro. São mãos entrelaçadas, pés dispostos a um belo passeio a tarde, sorrisos largos – sinceros. A fruta? Foi mordida. O gosto? Conhecido. O desejo? Mantido. E o futuro, com sorte, garantido. Não é perfeito, eu sei. Talvez não tenha a pretensão de ser. É melhor. Corajoso, seguro e, vez ou outra, despretensioso. Desvairadamente alegre. É afago. Sossego. Tem problemas, muitos. Mas eles viram rima, música, prosa e poesia. É grato pelo que foi, pelo que é e por tudo que pode, um dia, quem sabe, vir a ser. Não se mede. Dou as mãos a Shakespeare quando ele diz que amor quando se mede é pobre, é pouco. Não basta. Esse amor não vai te deixar nas nuvens. Ele vai te dar o chão. Esse amor, o seu amor, o nosso amor é beijo, abraço, abrigo e amigo.


Cazuza sim sabia das coisas.

quinta-feira, 13 de março de 2014

MONOGAMIA X "POLIAMOR".

Sou a pessoa mais monogâmica que conheço. O que não significa que nunca tenha me rendido a relacionamentos abertos. Considero-os tão bons quanto os amores romântico-monogâmicos que, vez ou outra, tive a sorte de desfrutar. Apesar de bons são muito julgados. Tanto um quanto o outro. A monogamia é sinônimo de prisão para aqueles que defendem a sua boa e velha concepção de liberdade. Já a relação aberta é vista pelos monogâmicos como algo vazio e desrespeitoso, uma verdadeira putaria desenfreada. Defendo a teoria de que, quando se trata de relacionamentos e sentimentos, é impossível estabelecer rótulo para o que pode vir a se firmar entre duas pessoas. Ou três. Ou quatro. Existem muitas alternativas. Um número infindável de pactos e arranjos a serem estabelecidos. Sou adepta à monogamia, mas há um “porém”. Para chegar ao ponto de desfrutá-la, e de me comprometer com as condições inerentes a mesma, é preciso que me deem tempo. E é através desta condição que eu usufruo das outras maneiras de se amar, encantar, viver. Não opto por ela pela pressão que a sociedade impõe sobre os relacionamentos. E sim porque, depois de determinado momento, o corpo, a mente e a alma pedem algo mais singelo que o “poliamor”. Tudo gira em torno de uma coisa só: saber lidar. A hipocrisia tem destruído e manchado as nossas relações. As pessoas embarcam em viagens mesmo sem se sentirem prontas ou adequadas para aquilo, e acabam sofrendo. O discurso moderno de que podemos estar com alguém, nos sentirmos queridos e, ainda assim, gozar da liberdade é realmente muito atraente. Mas nem todos podem comprá-lo. E não há problema algum nisso. Algumas pessoas sabem lidar com essas coisas. Outras afirmam que sim enquanto vivem em estado de completa aflição. E outras, raras e poucas, conseguem e sabem viver isso de verdade. O combinado não sai caro, nunca. E as pessoas precisam aprender isso. Não deixar as coisas subentendidas e muito menos se reprimir para agradar alguém que quer mergulhar em algo que na verdade não te agrada, não apetece ou que, apenas, não se considera pronto. 

A verdade é uma só: quando se trata de pessoas a única coisa que não pode faltar é respeito. Já o amor, cada um vive a sua maneira.

domingo, 9 de março de 2014

POBREMA.

Já me importei mais com erros de ortografia e pontuação. Uma vírgula mal utilizada me provoca arrepios, confesso. Achar que vírgula é pausa para respiração: piorou. “Mas” e “mais” não deveriam ser confundidos. “Mal” e “mau”, também não. “Lidar” é diferente de “lhe dar”. “A gente"? Somos nós. "Agente"? O 007. “Meu nome é Bond, James Bond”, lembra? Não me levem a mal, não há uma gota de preconceito no que escrevo. Isso acontece porque eu admiro o universo das letras ou, talvez, por escrever desde que me entendo por gente. Mas uma coisa é certa: a ignorância não me assusta, não me afeta e não me enoja. A arrogância sim. De um lado a falta de conhecimento, do outro a BURRICE. Aquele preconceito, mesquinho, travestido de conhecimento. As pessoas se corrigem o tempo todo e fazem piada disso. Uma declaração passa a ser menos importante porque o remetente pecou aqui ou ali na escolha das palavras, pontuação ou qualquer outro fator que fuja da norma padrão. Um jovem passa a ser motivo de piada quando deixa escapar uma palavrinha ou outra considerada “errada”. Andamos tão defensores do binômio “certo ou errado”. A gente acaba se esquecendo de entender e se fazer entendido. E, muitas vezes, de perceber que é na simplicidade do outro que compreendemos a vida e o que acabara de ser dito. É claro, não há nada mais atraente que um texto bem escrito, um vocabulário amplo e rebuscado. Alguém discorda? Bom, eu não. Mas as palavras foram feitas para terem e darem sentido a vida. E, em um mundo onde “gentileza” e “gratidão” caíram em desuso, um erro aqui e outro acolá não são tão importantes assim.

Com a palavra, o sábio, Oswald de Andrade:

PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco 
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro