Nunca mandei um bom-dia-amor
pra ele acordar com um sorriso, muito menos me despedia ao ir embora. Eu
gostava mesmo era da bagunça que, sazonalmente, eu provocava em seu quarto e na
vida daquele cara que tinha tudo para fugir de mim. Nada nele me fazia querer
ficar, exceto o dom de parar o tempo e a capacidade de reduzir os problemas
alheios a pó. Ele sempre soube que não fomos feitos para durar mais do que duas
ou três primaveras e, ainda assim, apostou todas as fichas que tinha na coisa mais instável desse mundo: eu. Era um
cara bacana, pena que morreu. Calma, não literalmente. Machado de Assis certa
vez, em um de seus livros, disse que possuímos duas almas: uma interna e outra
externa. Nossa alma interna é responsável pelo olhar de dentro para fora, são
nossos desejos, princípios, valores e a boa e velha consciência individual. Já
a externa é o que de mais vulnerável e frágil possuímos. Pode ser uma aliança,
um carro, uma casa. Algo construído ou conquistado, material ou simbólico. Mas
que possui muito valor, o que é diferente de preço. Perder nossa alma externa,
segundo Assis, nos aproxima ou, em alguns casos, nos condena a morte.
Ele me perdeu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário